quinta-feira, agosto 02, 2012

Jesus e seu plano para acabar com a pobreza



A pobreza e a existência dos pobres é o maior sinal de que o projeto original de Deus foi subvertido pela injustiça humana.
Pobreza é fruto da injustiça. É uma ameaça à vida.
A espiritualidade de Jesus, é a espiritualidade da vida com abundância para todos, é a espiritualidade que dá vida para que outros tenham vida.

Essa frase foi publicada ontem no Facebook por um deputado estadual que está em franca campanha para promover sua esposa como candidata a vereadora. Ele também é pastor evangélico de uma igreja com uma boa representatividade na cidade de São Paulo. Já que é ano de eleição, eu pretendo escrever alguma coisa sobre políticos pastores ou pastores políticos, ou algo assim. A questão de pastores se tornarem políticos se tornou tão corriqueira e natural que pouca reflexão se tem dado ao assunto. Mas esse assunto fica para outro dia. O que eu quero desafiar é a veracidade da aceitação acima. Será que a pobreza é o maior sinal que o projeto de Deus para a humanidade foi subvertida? O plano original de Deus para o homem era a riqueza? O subverter do plano de Deus foi a injustiça humana? A pobreza é fruto da injustiça?
Em ano de eleição, frases de efeito são importantes, até porque elas ofuscam a costumeira falta de plano dos candidatos. Isso acontece com todos os candidatos, sejam eles evangélicos ou não. Mas o quanto eles deveriam deixar que o marketing eleitoreiro influenciasse a sua teologia? O que deveria nos informar sobre os planos de Deus e o que aconteceu com ele? A política? A sociologia? Filosofia talvez? Ou devemos nos ater ao que a Bíblia diz sobre o assunto e nos informar através dela?
O raciocínio acima parte do princípio que a pobreza é o mal maior a ser erradicado. Ele parte do princípio que o plano original de Deus para o homem era a riqueza e que ninguém deveriam ser pobre. Que a causa da pobreza é a injustiça. Com Jesus é colocado na frase, a única conclusão lógica é que a principal obra de Jesus no mundo seria erradicar a pobreza. Admito que isso não é afirmado na frase acima, mas todo o resto o é. Ora, se o objetivo maior do plano de Deus é que o homem não seja pobre (seja rico, tenha em abundância) e se Jesus veio a Terra cumprir o plano de Deus, então, Jesus veio a Terra acabar com a pobreza. É a única conclusão lógica.
Infelizmente, ou melhor, felizmente, não é isso que a Bíblia ensina. Primeiro, a Bíblia em momento algum apresenta a pobreza como algo que deveria ser combatido completamente. O povo de Israel possuía legislação que impedia que as pessoas morressem de fome (Lv 19:9-10; Dt 24:20-21; Ex 23:10-11) e Deus realmente não desejava que houvesse pobreza em Israel (Dt 15:4), mas o próprio Senhor reconheceu que os pobres sempre estariam na terra (Dt 15:11). Quando chegamos ao Novo Testamento, não vemos nenhuma preocupação da igreja em erradicar a pobreza no mundo. O que vemos é a igreja cuidando dos seus membros, alimentação dos pobres (Atos 6:1), mas nada efetivo para que a pobreza fosse erradicada do império. Até porque o objetivo dos apóstolos não era a transformação social do Império, mas sim o reino vindouro de Deus. A mente deles estava no Novo Céu e Nova Terra (Ap 21:1) e sabiam que nessa nova ordem tudo seria diferente.
Também não podemos nos esquecer de que Jesus era pobre. Quando um mestre da lei disse pra Jesus que o seguiria para onde quer que fosse (Mt 8:19), a resposta de Jesus foi “"As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça". (v. 20). Se aquele que veio implantar o plano de Deus na terra era pobre, então, obviamente esse plano não era erradicar a pobreza (veja também 2 Co 8:9).
O plano de Deus para o homem é que vivêssemos para Ele e por Ele (Rm 11:36). O pecado do homem, através da desobediência de Adão trouxe a maldição sobre nós. Todas as outras coisas ruins são resultados dessa desobediência (Rm 5:12). Jesus Cristo veio para reparar isso. Ele veio para que nós, que nos tornamos inimigos de Deus, fossemos reconciliados com Deus (Rm 5:10). Jesus Cristo nos deus uma esperança celestial (Fp  3:20).
Em resumo, em nenhum dos 27 livros do Novo Testamento vamos encontrar qualquer referencia bíblica que indique que o plano de Deus para o homem seja a erradicação da pobreza.
Em última instância, achar que o evangelho é o mesmo que erradicar a pobreza não deixa de ser uma visão sociológica e mais requintada da boa e velha teologia da prosperidade. E o mais triste é que por muitas vezes eu já vi esse mesmo pastor/deputado falando de púlpito contra a teologia da prosperidade. Coerência não é exatamente o lado mais forte da política brasileira.

2 comentários:

Luís Araújo disse...

olá Maurilo

Assim como eu tenho muitas vezes recorrido aqui para criticar algumas das suas interpretações da Bíblia. Quero elogiar pelas palavras que usou neste tema. Parabéns.

Maurilo e Vivian disse...

Olá Luís. Obrigado. Sei que discordamos em pontos centrais sobre a Bíblia, mas sei também que devemos concordar em muitas outras coisas.
Abraços.

Nas escrituras, tirar os sapatos tem um significado muito especial. Quando Moisés teve seu primeiro confronto com Deus, Ele disse para que ele tirasse seus sapatos porque ele estava em terra santa. Jesus caminhou descalço para o Calvário. Na cultura daquele tempo, estar descalço era o sinal que você era um escravo. Um escravo não tinha direitos. Jesus nos deu o exemplo supremo de renunciar tudo por um grande objetivo.
Loren Cunningham Making Jesus Lord / Marc 8:34,35

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