domingo, janeiro 10, 2010

“FAVOR MANTER DISTÂNCIA”: As Testemunhas de Jeová e as orações publicas


Esse é um texto que meu irmão em Cristo o Professor Cleber Tourinho me enviou e me permitiu publicar em nosso blog. Leitura muito interessante.

Ontem, dia 02 de janeiro de 2010, pela primeira vez tive a oportunidade de levar minha querida esposa Renata ao Salão do Reino perto aqui de casa, para que ela conhecesse o ofício religioso de lá. Ela há muitos anos é evangélica, e teve pouco contato com a imensa quantidade de grupos religiosos que explodem por todos os lados nesse nosso Brasil varonil, e por isso decidimos que, sempre que possível, iremos visitar um templo diferente aos sábados, desde que isso não atrapalhe nossa programação oficial e familiar. Graças a Deus fui presenteado com uma esposa de mente bem aberta, que deseja aumentar seu conhecimento sobre o mundo que a cerca, e não uma dessas pessoas fanáticas cuja única visão de vida se circunscreve ao seu próprio umbigo.

Como fui Testemunha de Jeová por 16 anos, e desejoso de que ela visse de perto como funciona a minha antiga religião (que, não se pode negar, em muitos aspectos é bem mais organizada e direcionada que a maioria das igrejas evangélicas por aí), escolhi o Salão do Reino. Pois bem. Como sempre é feito, a congregação local nos recebeu bem, nos acomodamos em cadeiras bem duras (a pobre Renata ficou com as costas doendo depois...) e em menos de dois minutos iniciou-se a reunião. Cânticos no novo cancioneiro (muito bonita a capa! Parabéns ao desenhista). As músicas entoadas são as mesmas, só mudaram as letras, que a meu ver ficaram mais fáceis. Há uma teoria de que a mudança se deu por causa da quantidade de canções escritas por pessoas que agora estão desassociadas, mas deixemos esse assunto para outro dia.

Após a oração, começa o discurso público. O tema exposto pelo orador (muito bom, por sinal) discorria sobre manter-se desperto. Como sempre, enfatizou-se a necessidade de se injetar doses cavalares de “estudo pessoal” nas veias, ou seja, ler e reler as publicações da Torre. Creio que minha esposa tenha ficado admirada com a quantidade de textos bíblicos lidos, pois não se parava de consultar as Escrituras (como especialista em comunicação, eu sei que isso é estratégia para evitar que o ouvinte raciocine por conta própria, pois a profusão de citações de vários autores faz com que a mente fique atenta, não ao que se diz, mas a qual será a próxima citação).

No estudo de A Sentinela, recebemos emprestado um exemplar, e minha esposa achou interessante o método de perguntas e respostas. Como ela é da área de RH, e está acostumada a participar de seminários e debates, disse-me que achou muito bom que “o estudo seja aberto a opiniões”, que as pessoas possam comentar o que aprenderam. Bom, depois vou ter que explicar a ela que aquilo é tão-somente um condicionamento mental também, que ninguém dá sua opinião em nada, mas simplesmente ou lê o que está no parágrafo ou comenta “com suas palavras” na forma de ruminação do conteúdo. Isso mesmo. A pessoa lê, mastiga e depois rumina o mesmo material que leu, sem adicionar nada de si mesmo, sem correlacionar com pontos pessoais que aprendeu de uma leitura própria apenas da Bíblia. Lamentável. Esta poderia ser uma excelente oportunidade de discutir os rumos e necessidades da Organização, das congregações e de seus membros, mas se reduz a uma seção de sabatina teocrática, mecânica e ideologicamente direcionada.

Mas vamos ao motivo da escrita deste texto. Trata-se de uma observação ao estudo de A Sentinela da semana, na edição apenas para a congregação de 15 de novembro de 2009.

Bom, o tema estudado versava sobre as orações, o que elas revelam sobre cada um de nós. Achei muito bacana a abordagem, e realmente não saí dali vazio ontem à noite. O problema foi quando se chegou ao finalzinho da consideração, no tópico sobre “orações públicas”.

Um dos últimos parágrafos discorre sobre qual posição se deve assumir ao se ouvir uma oração pública. Claro que, por ser uma forma de adoração, orar é um momento solene e de devoção a Jeová. O orador deve saber usar suas palavras, sem o que a assistência não poderia dizer “amém” (que assim seja). Igualmente, os ouvintes precisam demonstrar a necessária e devida reverência, tanto por ouvir com atenção como por adotar uma postura física louvável. Ponto para eles, estão certos. Citam-se textos bíblicos em apoio ao argumento.

A celeuma se forma, contudo, no restante do material. Sem citar nenhuma base bíblica, mas apenas a “autoridade” imposta pela ATCJ (novo nome da Sociedade Torre de Vigia no Brasil – Associação das Testemunhas Cristãs de Jeová), diz-se que não seria apropriado realizar orações públicas por meio de um círculo de orações, em que as pessoas dessem as mãos. O argumento “bíblico” da revista? Isso poderia desviar a atenção de alguns, principalmente dos que ‘estivessem visitando a reunião e não estivessem acostumados com as nossas crenças’. Outro ponto abordado foi que um casal até pode dar as mãos durante uma oração pública, de maneira discreta, mas será que podem se abraçar, ainda que também de forma discreta, mesmo que apenas demonstrando uma singela união como marido e mulher? Que nada! Isso é proibido nos Salões do Reino a partir de hoje! A justificativa? Tal atitude ‘poderia desviar a atenção dos outros’, ou mesmo demonstrar que o casal estaria dando ‘mais atenção ao seu relacionamento romântico’ que à adoração a Deus.

Não sei se minha esposa notou, mas fiquei extremamente aborrecido com essa parte do ensino. Deu-me vontade de levantar a voz na hora e redarguir, mas por uma questão de ética e respeito (e por estar na “casa dos outros”) preferi me calar.

Indignei-me por várias razões: primeiro, o Corpo Governante não teve sequer a coragem de fundamentar de modo explícito suas opiniões próprias em nenhum versículo bíblico. Foram demasiadamente abrangentes, utilizando princípio da necessária reverência a Deus, que é demasiadamente amplo, como desculpa para impor mais uma proibição aos irmãos. Agora nem mesmo abraçar sua esposa durante a profissão de uma oração pública a pessoa pode, num gesto de amor e de achego, demonstrando que Jeová está presente naquela união, como a base primária do cordão tríplice que “não pode ser prontamente rompido em dois” (Eclesiastes 4:12). Ou seja, a ATCJ quer romper esse cordão, essa intimidade do casal diretamente com Jeová, durante o momento mais íntimo de comunicação com Deus, em nome de uma regra eminentemente humana.

Tal tipo de argumento é também falho, pois impede, por extensão, que você demonstre seu carinho e união a outros membros de sua família. Isso significa que, da mesma forma, agora você nem mesmo poderá abraçar e ser abraçado por seus próprios filhos durante uma oração no Salão do Reino ou numa Assembleia. Ah, e esqueçam as demonstrações de amizade sincera que de vez em quando se veem nas ilustrações das publicações e em alguns vídeos da ATCJ, principalmente em países latinos e africanos, regiões em que, culturalmente, as pessoas são naturalmente muito “pegajosas”. Dessa forma, estão ameaçados de serem desfeitos, ou pelo menos afrouxados, os laços familiares e de amizade seladas sob a união que pode ser fruída durante uma oração ao Pai Celestial, em conformidade com a prece de Jesus em João 17:11: “Santo Pai, vigia sobre eles por causa do teu próprio nome que me deste, para que sejam um, assim como nós somos”.

Outro ponto que me deixou muito frustrado com o argumento do Corpo Governante: o fato de eles substituírem, como sempre fazem, a responsabilidade de suas opiniões humanas próprias pela da “Transferência de Consciência Coletiva Tejotiana”, como eu costumo falar. Como assim? Lembremo-nos de que, ao se falharem as expectativas do Armagedom em 1975, mesmo as publicações da Sociedade por anos e anos antes disso darem como certo o fim do Sistema de Coisas naquele ano (a história comprova isso), o Corpo Governante asseverou, na A Sentinela de 15 de setembro de 1980, páginas 17 e 18, parágrafo 6, que a culpa era dos irmãos de maneira individual:

“Caso alguém tenha ficado desapontado, por não seguir este raciocínio, deve agora concentrar-se em reajustar seu ponto de vista, por não ter sido a palavra de Deus que falhou ou o enganou e lhe causou desapontamento, mas, sim, seu próprio entendimento baseado em premissas erradas” (grifo meu).

Ou seja, é costume do CG transferir sua opinião para os do “povo de Jeová”, como se a ideia fosse dos pobres irmãos, como se isso partisse das congregações, e não da Sede mundial nos EUA! Assim, diz-se que “alguns podem ficar constrangidos” ou “pode-se desviar a atenção de alguns” caso a pessoa dê as mãos ou abrace seu amigo, parente ou cônjuge durante a oração. Mas, na realidade, a ordem vem de cima para baixo, e não ao contrário. Todos sabem que não existe nada que se aproxime de uma democracia nas Testemunhas de Jeová, ou mesmo de uma consulta colegiada, ou de colheita de opiniões. A palavra do CG (Corpo Governante) é lei, mesmo que isso não esteja claramente demonstrado na Bíblia ou seja contrário à cultura local sadia, e ponto final. É o que eles querem que os seguidores pensem, que se trata de uma “Teocracia”, um governo de Deus, em contraponto com a Democracia, ou seja, um governo em que a opinião de todos os afetados é ouvida, em que as discussões são abertas e em que se tira a decisão conforme o consenso da maioria. Nas palavras de Winston Churchill, “a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”.

Além do mais, vamos ser francos: se durante as orações 99% da assistência está de olhos fechados, como o fato de eu ou meu irmão estar abraçado com sua esposa/esposo pode desviar a atenção? Só se aquele que se propõe a ter sua atenção desviada já esteja assim, quer dizer, prestando atenção nos outros, ou seja, de olhos abertos!!!! Me poupe, viu????!!!!

Enfim, mais uma vez, como em tantas outras, a Associação Torre de Vigia demonstra ser realmente uma religião que segue de perto a Bíblia. Ah, mas como assim? Segue perto mesmo é o seguinte texto: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! porque dais o décimo da hortelã, e do endro, e do cominho, mas desconsiderastes os assuntos mais importantes da Lei, a saber, a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Estas eram as coisas obrigatórias a fazer, sem, contudo, desconsiderar as outras. Guias cegos, que coais o mosquito, mas engolis o camelo!” (Mateus 23:23-24).

Enquanto para o CG abraçar seu cônjuge durante uma oração pública é errado, outras facetas da reverência a Deus quando fazemos nossas orações são relegadas a segundo plano, ou mesmo esquecidas. Deve-se lembrar que orar é um momento especial de adoração a Deus, e não apenas uma hora do dia em que “batemos um fio” para o Divino Criador. Por isso, como em qualquer ato de adoração, orar deve ser uma ocasião de reflexão tanto mental quanto corporal, pois o corpo precisa estar em harmonia com a nossa mente nessa hora.

Quanto às atitudes físicas adotadas por pessoas que se dirigem a Deus em oração, quer dizer, durante orações públicas, pois as orações pessoais são apenas entre a pessoa e Jeová, a Bíblia, por exemplo, deixa depreendido em Mateus 11:25 que Jesus estava de pé em frente a uma multidão quando orou; além disso, lemos sobre Jesus ter orado prostrando-se com o rosto em terra (em oração junto com Pedro e os dois filhos de Zebedeu, logo, uma oração pública - Mateus 26:39); ademais, segundo a Bíblia, ajoelhar-se é também costume cristão, inclusive publicamente (Atos 21:5-6; Efésios 3:14), e mesmo de olhos abertos não há nada de errado, pois o próprio Cristo fez isso, conforme se lê em João 17:1. Ademais, uma coisa que nunca vi Testemunha de Jeová nenhuma fazendo: orar com as com mãos levantadas (1 Timóteo 2:8). Mesmo que isso não seja uma regra formal, uma lei bíblica, é sugestivo e digno de atenção, pois até mesmo lemos que o ressuscitado Senhor Jesus Cristo levantou as suas mãos para abençoar seus discípulos em Betânia (Lucas 24:50). Não precisa dizer que isso foi feito por meio de uma oração, não é?

Adicionalmente, vejamos como Salomão orou publicamente por ocasião da dedicação do Templo:

“E Salomão começou a ficar de pé diante do altar de Jeová, na frente de toda a congregação de Israel, e então estendeu as palmas das suas mãos para os céus; e prosseguiu, dizendo: ‘Ó Jeová, Deus de Israel, não há Deus igual a ti nos céus em cima, nem na terra embaixo, guardando o pacto e a benevolência para com os teus servos que andam diante de ti de todo o seu coração [...]”.

Em Esdras 9:4, 5, lemos a maneira como foi feita uma oração pública pelo escritor desse livro:

“Ajuntaram-se também a mim todos os que tremiam por causa das palavras do Deus de Israel contra a infidelidade do povo exilado, enquanto eu estava sentado aturdido até a oferta de cereais da noitinha. E por ocasião da oferta de cereais da noitinha pus-me de pé da minha humilhação, estando rasgadas a minha veste e a minha túnica sem mangas, e passei a dobrar os joelhos e a estender as palmas das minhas mãos a Jeová, meu Deus”.

Outras referências a esse costume (repito: não é ordenança!!!) podem ser vistas especialmente nos Salmos. É interessante lermos o Salmo 28:2: “Ouve a voz dos meus rogos quando clamo a ti por ajuda, quando levanto as mãos para o compartimento mais recôndito do teu lugar santo”, e Salmo 63:4, ele diz: “[...] em teu nome levantarei as minhas mãos”. No Salmo 141:2, Davi diz: “Seja minha oração preparada como incenso diante de ti, a elevação das palmas das minhas mãos como a oferta de cereais da noitinha”.

Quanto a esses assuntos, a pedra de toque sempre será o que Paulo disse em 1 Coríntios 4:6 – “Agora, irmãos, estas coisas passei a aplicar a mim mesmo e a Apolo, para o vosso bem, para que, em nosso caso, aprendais a [regra]: ‘Não vades além das coisas que estão escritas’, a fim de que não fiqueis individualmente enfunados a favor de um contra o outro”. Não é sábio querer impor regras e costumes a momentos tão particulares de adoração da pessoa. Nada há na Bíblia que proíba a mim de permanecer abraçado a minha esposa, ou a meus filhos, ou a um amigo meu durante uma oração pública. Infelizmente, quem se sentir incomodado por essa atitude tão bonita é que deve estar errado, pois está de olhos abertos (o que não é errado) durante um momento que deveria ser de concentração, e, pior ainda, está prestando atenção na vida alheia, desobedecendo, agora sim, a ordens bíblicas claras (1 Timóteo 4:16 – “Presta constante atenção a ti mesmo e ao teu ensino”; 1 Pedro 4:15 – “No entanto, nenhum de vós sofra como [...] intrometido nos assuntos dos outros”).

Resumindo, tal atitude expressa pela letra de A Sentinela de 15 de novembro de 2009, primeiro artigo de estudo, mostra mais uma vez a grande sabedoria que Deus me deu ao me desligar da Associação Torre de Vigia. Ser cristão é ser livre, não para se fazer o que se quer, mas para experimentar a Graça de Deus (sua Benignidade Imerecida) de uma forma mais ampla, tomando para si mesmo a responsabilidade sobre seus atos e feitos, não mais dependendo de um órgão regulador humano maior, um suposto “Escravo Fiel e Discreto”, que determina cada ato seu, cada passo de sua vida na Terra. Não, ser de Cristo é adorar ao Pai com Espírito e Verdade, e não com Sentinela e Corpo Governante.

Enfim, um bom pesquisador das Escrituras poderá perceber que não é o modo como você ora que importa a Deus, mas se aquele seu momento de união com Ele realmente está sendo usado para buscar sua orientação, a união mística com o Divino e, principalmente, para louvá-lo pelo que Ele foi, é e sempre será pela eternidade.

Amém!

Prof. Cleber Tourinho de Santana
João Pessoa, 03 de janeiro de 2009
ctsantana@gmail.com

2 comentários:

João M. disse...

Belo artigo amigo!

É bom demais ler críticas como essas...
com base e conteúdo bíblico.

ctsantana disse...

Obrigado João! Qualquer coisa, entra em contato! Fica na Paz de Cristo!

Nas escrituras, tirar os sapatos tem um significado muito especial. Quando Moisés teve seu primeiro confronto com Deus, Ele disse para que ele tirasse seus sapatos porque ele estava em terra santa. Jesus caminhou descalço para o Calvário. Na cultura daquele tempo, estar descalço era o sinal que você era um escravo. Um escravo não tinha direitos. Jesus nos deu o exemplo supremo de renunciar tudo por um grande objetivo.
Loren Cunningham Making Jesus Lord / Marc 8:34,35

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